Muitos falam da tradição da praxe e da continuação dos velhos costumes, para esses por vezes pergunto, o que seria dos cristãos hoje em dia se a tradição de os mandarem para a arena para serem devorados pelos leões se mantivesse?

Esta pergunta é mais uma pequena provocação da minha parte que outra coisa, já que nem se pode dizer que a praxe tenha tradição. A verdade é que as Universidades nem sempre tiveram a fama e o prestigio que têm hoje em dia, nos primórdios das primeiras Universidades nem instalações físicas havia, isto é, a Universidade não tinha um espaço próprio para onde se ia estudar. O que acontecia era que um homem famoso (um filósofo, um sábio, etc) decidia dar aulas e naqueles tempos a escolaridade não era obrigatória nem era tão extensa como é hoje (tirando quatro anos iniciais para a aprendizagem das temáticas mais básicas, um jovem de 12 anos podia perfeitamente "frequentar" a universidade). Esse professor que decidia numa determinada cidade começar a dar aulas de matérias mais avançadas, começava a receber alunos que seguiam a fama do professor e já tínhamos uma universidade.

Estas Universidades começaram a ter como base as igrejas (já que tinham espaço para acolher muita gente), mas não havia manuais nem cadernos e quando o professor se cansasse daquele sitio, pura e simplesmente ia se embora e os alunos podiam segui-lo para outra cidade ou permaneciam no mesmo sitio ou podiam voltar para as suas casas noutras cidades.

Estes jovens alunos que dormiam na rua ou em qualquer sitio, longe das suas casas e muitas vezes longe dos seus países eram vistos pela população como vândalos e arruaceiros que não tinham nada para fazer, sim porque naquela altura estudar não dava rendimento e o trabalho era essencial para a sobrevivência das pessoas. Estes alunos como não trabalhavam, tinham de roubar para comer e era frequente nos sítios onde eles estavam existir sempre zaragatas e brigas.

Como estava a dizer, a população não via com bons olhos este grupo de jovens que só ouviam os "sermões" do professor e depois tinham de roubar para comer. Começou a ser um costume, sempre que um novo aluno chegava para ouvir as palestras do mestre (ou seja "frequentar a universidade"), existir um certo ritual de iniciação em que os mais velhos iniciavam os recém chegados, podia consistir numa prova de iniciação em que o novo aluno tinha de roubar comida para os mais velhos, etc.

Com tantos sarilhos que os estudantes arranjavam que quando se começou a pensar em criar um edifício para albergar definitivamente a universidade, nenhuma cidade aceitava que a universidade lá ficasse (tipo a coincineração!!!) E foi por causa disso que em Portugal a primeira universidade foi a de Coimbra, porque os nobres da capital não queriam ter que se sujeitar ao vandalismo dos alunos e assim decidiram mandar a universidade para a província.

Tirando Coimbra que manteve um certo ritual de praxe (mas nada que se compare com a praxe actual), nenhuma outra universidade tem tradição alguma de praxe. O que aconteceu foi que em meados dos anos 80 algumas universidades acharam curioso e engraçado retomar esse costume.

Desde então que a praxe tem-se vindo a desenvolver e a crescer sem controlo ou limite, passamos do oito para o oitenta. De uma situação controlada, passamos para uma situação de descontrolo total em que ninguém já sabe como agir para retomar "à boa e velha praxe".

A praxe já foi palco de estudos psicológicos, em que se revela que o aluno caloiro suporta a praxe porque tem a ideia de que num futuro próximo vai poder exercer esse mesmo "poder". O mesmo estudo revela que é tudo uma questão de poder psicológico, o aluno mais velho sente e pensa que é mais que os novos alunos, pensa que é mais importante, porventura o ponto alto alto da sua vida até então é mesmo esta exposição de força e poder em que mostra aos outros o quanto ele vale no acto de praxar.

Há pessoas que não gostam da praxe por vários motivos, uns têm medo outros pura e simplesmente não lhes interessa, é indiferente e outros até acham piada mas não estão para pactuar com certos actos menos correctos.

As queixas de hoje são diferentes das queixas do passado, mas o que se verifica é que só mudaram os motivos pelos quais se queixa porque de resto continua-se a queixar. Havia antigamente um costume na praxe de ir arrumar a casa dos "doutores", esse gesto foi tão criticado que hoje em dia é proibido nos códigos de praxe, infelizmente outros piores vieram à superfície.

O que quero dizer é que, será realmente possível prevenir antecipadamente todos os exageros e ofensas pessoais cometidos durante a praxe? Existe alguém que realmente controla a praxe?

As perguntas são directas, mas as respostas não podiam ser mais confusas, ninguém se entende, uns dizem que sim outros que não.

Cada vez vemos nos média a divulgação de queixas crime contra executantes da praxe, todos os anos as participações à PSP aumentam na percentagem de 100% ao ano, ou seja o dobro.

E todos os anos se fala da praxe e da sua importância e nada se faz para parar esta bola de neve.